Conto – Black heart 03

Mais crianças se aproximam. Elas ainda estão distantes, mas, sob a ordem do jardineiro, todas elas param e começam a se contorcer. Suas faces parecem chorar de dor, e eu vejo seus corpos ficarem verdes. Garras surgem nos lugares das mãos, assim como presas na mandíbula. Sua pele parece ter uma textura nodosa, e os cabelos tomam o formato de folhas. As crianças transformadas se põe a farejar em minha busca.~

“Eu poderia me segurar em algum lugar e me afastar dessas crianças…”

Porém algo distrai todos. Uma mulher. Mas não uma mulher qualquer. O corpete vermelho mal se distingue sobre sua pele alaranjada. O busto e os ombros são protegidos por peças de armadura. No lugar das sombrancelhas, chifres de bode surgem sobre a testa e os cabelos. Uma saia comprida contígua ao corpete finaliza a visão.

– Quem diabos é você? Uma demônio por aqui? Por acaso é serva… Dele? – Indaga o desconfiado jardineiro.

“Tomara que ela tenha vindo ajudar.”

Controlo meu impulso de atacar. Não conheço a demônio. Não tenho certeza de suas intenções e habilidades. Melhor continuar parado, para ter certeza de meu próximo ato. A demônio balança a cabeça em afirmativo e se vira.

“Droga!”

-Peraí, mulher! E por que diabos você está aqui? Escolha bem as palavras.

As crianças transformadas cercam a mulher. Parece que o jardineiro não acreditou nela.

“essa mulher aí… tomara que seja aliada. Se o velho está envolvido com plantas, melhor ficar perto de um muro”

Com calma, tento me aproximar de um muro.  Um padre surge de trás de um dos prédios escolares. Ele não parece ser do tipo compreensivo. A cruz que carrega no pescoço não parece pertencer a nenhuma religião que conheço. Mas as espadas que ele saca são armas bem-vindas. Infelizmente, não sou silencioso o bastante nesse momento.

– Black Heart, covarde, apareça!

 -Ora ora, se não é um padre que quer me… o quê?? Agora eu ouvi! Tem mais gente por aqui!!!

O jardineiro bota-se na defensiva, virado para mim. Pelo menos, ele não me vê. Os monstros ficam encarando o padre, esperando uma ordem de seu mestre. Um rapaz passa, visivelmente tentando fugir. É o mesmo garoto de antes.

-O quê? É o intrometido de hoje de manhã!

Os olhos do homem agora começam a brilhar em vermelho. O garoto grita e começa a correr. A demônio se transforma em um enxame de morcegos, e parte para cima das crianças, atrapalhando sua perseguição ao rapaz.

“Droga, ele me ouviu! parece que a gente vai ter que lutar. Se eu ficar visível aqui, não vou conseguir me posicionar pra proteger eles. Terei que sugar a energia dele.”

Faço um breve mudra, para facilitar o dreno. Outra mulher-demônio surge detrás de um arbusto e, com sua pistola, dispara uma rajada de espíritos famintos e gemendo, que devoram parte da alma do Black Heart. Parece, então, que ela é aliada.

– Eu não sou grande, mas sou duas, feioso!

Enquanto isso, o padre faz uma breve oração. Não reconheço o idioma, mas duvido que alguém use-o hoje em dia.

-Quod ore sumpsimus, Domine, pura mente capiamus, et de munere temporali fiat nobis remedium sempiternum.

Minha vez. Novamente estico o braço, mas dessa vez tento drenar a energia do Black Heart. Infelizmente ele está precavido agora. Eu erro.

Então ele diz, numa voz diferente, mais sinistra e grave:

-Seus idiotas!! Não vou deixar que estraguem meus planos!! Esta cidade vai voltar à natureza quer vocês queiram ou não! Custe o que custar!

Então ele começa a emanar uma aura púrpura e seus olhos se tornam totalmente negros. Ouço batidas de coração aceleradas. Seriam dele? Ou seriam minhas.

De repente, todo o corpo do jarineiro se torna líquido e cai no chão, espalhando-se na terra e nas plantas do jardim onde ele estava pisando. Tento analisar o acontecimento, enquanto corro para um muro. As crianças entram em estado catatônico, e o fazendeiro aparentemente sumiu. Me aproximo do padre e lhe sussurro no ouvido:

– As crianças espalharam bolinhas azuis pelo gramado.

A voz ecoa fraca, porém clara. É como se uma voz se sobreposse a várias outras, mais graves e mais agudas, falando a mesma frase.

– Não tenho idéia do que podem ser.

Visivelmente assustado, o padre pergunta:

– Você está ao nosso lado? É um escolhido também?

– Por Tensei-sama.

Confirmo com a cabeça, sem perceber que ele não pode me ver.

– Você consegue entender o que aconteceu com o black heart?

– Ao que parece ele corrompeu a terra e usa a natureza para corromper as crianças. Deixe ela em paz! Não julgue os outros pela aparência meu jovem. É um erro terrível. Ela está comigo e não com aquele jardineiro corrompido. Estamos aqui para salvar as crianças da corrupção do mal.

Só então percebo que o Jovem de antes está apontando um taser para a mulher demônio. Ela está um tanto quanto transparente. Posso ver o muro atravéz dela. Ela coloca o dedo sobre o Taser e se aproxima dele, rebolando.

-Não puxe uma arma se não é capaz de apertar o gatilho…

Então eu tenho uma idéia.

– Espere aqui.

Vou até onde o jardineiro se derreteu e olho a terra seca.

Para onde ele pode ter ido?”

Volto para o lado do padre e lhe sussurro:

– A gosma que o jardineiro tornou-se secou. Não sei dizer onde ele está.

Enquanto isso, o jovem ameaça a mulher-demônio.

-Ah, demônio, puxar o gatilho é uma coisa que eu faço muito bem…

Antes que o ato seja realizado, o chão começa a tremer. Olhamos uns para os outros. Uma grande árvore no jardim começa a crescer assustadoramente e muda de cor. Suas raízes enormes racham o chão. As crianças-monstro correm em direção à árvore, tão logo esta cresce. Desequilibrado pela tremedeira, caio no chão, ficando um tanto dolorido. Me levanto e volto a falar com o padre.

– Estamos ferrados. Alguém trouxe um machado?

Boquiaberto, o jovem indaga o que está acontecendo, enquanto a demônio dispara instintivamente. Seu tiro passa longe. As crianças escalam a árvore e se mesclam ao seu tronco, permanescendo livres da cintura para cima. O padre começa a entoar novamente naquela língua estranha. Enquanto ele fala, lâminas transparentes como cristal se formam.

-Dies iræ! dies illa

Solvet sæclum in favilla

Teste David cum Sibylla!

Dita a última frase, as lâminas atacam a enorme árvore. Apenas duas penetram na casca aparentemente resistente.

-Seus idiotas! Essas crianças vão me proteger de todas as maneiras!

Até para curar minhas feridas!

Não dá outra. As lâminas caem no chão enquanto uma das crianças geme. Os cortes abertos se fecham com velocidade espantosa.

– temos que tirar as crianças de perto. Talvez haja um ponto fraco…

Corro para tentar escalar a árvore, mas, tçao logo me aproximo dos galhos mais baixos, minha ausência de forçaimpede que eu continue. Felizmente caio antes das crianças me acertarem com suas garras. A demônio se transforma em uma nuvem de morcegos, também, e as duas nuvens se aproximam da árvore.  O padre faz o mesmo, para a uns 3 metros dela e começa uma oração. Ele não percebe o chão às suas costas se abrir. Mas o jovem percebe. Ele percebe rachaduras se formando por trás do padre, como se algo estivesse perto de brotar do chão. Então por impulso, o jovem rapaz corre e se põe entre Enrico e as raízes perfurantes que subitamente saem do chão. O ataque traiçoeiro da árvore maligna acerta em cheio o peito do rapaz, que impede o ataque com o seu próprio corpo.

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~ por nesello em 2010 01 25.

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